Palavras restantes

E depois de tanto amor nada mais restou a não ser uma caixa com papéis recheados de palavras. Escritos tão bem guardados e que não possuem a menor iniciativa de aparecerem assim como você. Naquele dia quando parti tudo era tão plausível que eu nem acreditava estar saindo dali sem te ter. E há pouco eu tinha. Eu te tinha nas brigas por atenção, nos choros por querer sempre o teu melhor e o melhor de quem te amava. Eu te tinha, nas pequenas e grandes coisas. E te tive tanto que foi estranho ir embora sem que você se mantivesse reinando no meu cheiro, nos meus sonhos, nos meus planos. E me doía, sim, algo doía mas um doer diferente, como um pássaro que dói as asas quando voa pela primeira vez, como uma criança que se machuca na primeira queda, como doem os olhos quando avistam o sol de repente. Era um doer, mas um doer de liberdade. A liberdade conseguida após tantas entregas de corpo e alma. Após tantas entregas de planos e sonhos. Fui embora sem te ter, entretanto tendo-me mais do que nunca.
Chrystiane Guedes

<< Página inicial