domingo, julho 02, 2006

A fuga certa


E ela pensava estar apaixonada, na verdade acreditava tanto e com tamanho empenho que todos os outros também se comoviam com tal sentimento. Se esforçava, sem medidas, para provar a si mesma que o amor havia finalmente aparecido em sua vida. Como algo que brilhasse aos seus olhos ela via estar vivendo algo que sonhara, realização não sentia mas insistia e negava seus próprios sentimentos, passando por cima de mágoas. Tantas foram as vezes que a vida quis mostrar-lhe que não se entregasse a tal facilidade. Os caminhos mais fáceis são sempre mais sedutores, e acabamos por deixar nos envolver. Era uma forma de fuga de seus problemas, através de um mundo inventado para se sentir mais completa, menos vazia, menos cobrada. Mundo no qual ela podia reunir todas as frustrações e depositar em algo palpável às suas mãos.
Algo tão grandioso quanto esse sentimento, se realmente existisse, não poderia ser finito. Algo mágico, sonhado, idealizado. E utopias, não possuem base na qual se sustentar. Principalmente quando se deparam com realidades cruas, nuas, cortantes. Realidades que te puxam com tanta força que não há como voltar a sonhar. Tal realidade a fez abrir os olhos e escancarar o coração. Realidade que arranhou e rasgou todas as idealizações. Amassou e engoliu os sonhos. E vomitou toda mágoa guardada há tempos.
Realidade como sinônimo de verdade, fez morada em seu ser. Abriu às portas para caminhos complementados, unificação de desiguais, independência compartilhada. Espaço foi dado para que o equilíbrio reinasse através da verdadeira doação enquanto tanto se recebia. Enquanto tão pouco se esperava de ambos. E foi de tamanho espanto quanto bem vinda a realidade que a invadiu, trazendo-a de volta ao mundo imperfeito. Um mundo onde ela pode enxergar o que tanto precisava ignorar. Enxergar que sua alma chorava, em prantos copiosos, implorando por sua felicidade. Ali, tão perto escondida, dentro de seu coração.
Chrystiane Guedes